abstrações

agosto 11, 2014

Abstrações

 

A descoberta da fotografia foi o que libertou o artista do seu papel de documentador visual da paisagem, das pessoas e dos fatos que o cercava. A fotografia passa a fazer estes registros com mais rapidez e fidelidade, pois não depende da relação afetiva do artista com o momento ou objeto a ser retratado.

Como em todo o momento de extrema liberdade, aqui também houve um tempo de busca de um novo sentido para o fazer artístico, que resultou na ampliação quase infinita de possibilidades e de valorização de elementos que até então faziam parte da obra como recursos meramente técnicos ou complementares.

Assim, a cor e todas as suas nuances, a materialidade da tinta, ou a linha como consequência do gesto sobre a superfície constroem obras independentes do resultado formal, ou se este nos traz informações descritivas de cenas, paisagens ou modelos vivos.

Soma-se a isto, a ‘descoberta’ do inconsciente e sua relação com a narrativa dos sonhos e a valorização destas imagens vindas do universo interno do artista e transformado em obra através do fazer artístico, independente da linguagem utilizada. Libertam-se assim, de vez, a poesia e o fazer poético.

A relação obra – espectador fica também livre do compromisso com o reconhecimento da realidade física do universo que os cercam, dando passagem ao ‘sentir’ o trabalho.

Nesta exposição optamos por apresentar ‘Abstrações’. Trabalhos para sentir a cor, alinha, o gesto, e viver a possibilidade de voar com imagens que não nos trazem necessariamente memórias visuais, mas que mesmo sem saber como nem porque, batem no olho, no coração, na alma…no fundo.

 

Daisy Viola

 

a pele que se solta

agosto 11, 2014

Pele que se solta
Dor – feminino – religioso – barroco

A imagem da cobra nadando no rio e esfregando o corpo varias vezes na pedra da margem para que a pele se solte.
Afinal o corpo cresceu e aquela roupa não serve mais – edicse – dói.
De repente, papéis brancos, finos, leves, sensíveis, amassados recebem um ‘reforço químico’ de verniz acrílico para que suportem os passos que vem a seguir. Coisas de mulher. Trazem um pouco da bagagem de muitas. São imagens há tempos guardadas, pedaços de vestidos que um dia foram importantes para a amiga, rendas, tules, lantejoulas e rosas de pano vermelhas, tudo elementos que simbolizam a nossa necessidade feminina de, de vez em quando, ‘trocar de pele’, fazer vir à tona a que está por baixo, mais perto do dentro.

O papel enruga, rasga, amassa, reage, não aceita. Recebe mais papel, mais pano, mais imagem, mais tinta, mais vida, mais brilho, dourados, vermelhos, enfim, se solta, como a pele da cobra.
E olho. Arrepio. Está quase barroco, religioso.
A existência é cheia de pedras pelo caminho. Servirão de asperezas a serem esfregadas para que a pele se solte e nos deixe crescer.
A arte, de novo cumpre o seu papel de materializar um universo individual, porém universal.